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As Aventuras de Pi

as-aventuras-de-piNada como manter as expectativas baixas antes de ver um filme que você não faz ideia do que esperar: por todos os comentários que li sobre este As Aventuras de Pi, eu esperava que ele fosse um filme que chegaria a me irritar, ainda mais levando em consideração sua temática multi-religiosa e altamente espiritual, mas refletindo mais sobre o filme, a impressão que eu tive foi que ele funciona mais como propaganda anti do que pró-religião.

O visual do filme me incomodou um pouco, mas casa bem com o tom fantástico adotado na narrativa. Assisti em 2D, mas acredito que o 3D tenha tornado a experiência mais rica, apesar de algumas cenas parecerem retiradas daqueles documentários de fundo do mar em 3D.

O filme conta a história de um garoto indiano cujos pais, que têm um zoológico, resolvem se mudar para o Canadá e vender alguns dos animais na América para obter algum lucro, mas o naufrágio do navio em que viajavam acaba por deixar Pi perdido no meio do Pacífico em um bote com um tigre que desde sua infância o fascinava e aterrorizava.

A discussão teológica começa no fato de Pi ser um rapaz aberto a fé alheia bem como à sua própria, então o vemos abraçar religiões diversas até seu pai brincar que, assim que ele abraçar também o judaísmo (depois de já se “converter” ao hinduísmo, catolicismo e islamismo), não precisará mais trabalhar, pois todo dia será feriado em alguma religião. As críticas pontuais do pai à religiosidade de Pi vão de encontro ao apoio que este recebe da mãe, e esta dualidade se estende a todo o resto do filme, de maneiras mais ou menos sutis.

Como todo bom fundamentalista, Pi interpreta como sinal de Deus os acontecimentos mais arbitrários, como quando põe sua própria vida em risco ao tentar contemplar uma tempestade ao invés de procurar se proteger dela. Se por um lado ele continua buscando forças em sua fé para permanecer vivo, são as engenhocas que ele aprende a fazer em um pequeno guia de sobrevivência que tornam sua sobrevivência possível.

Alguns detalhes do filme, mesmo que não intencionais, acabam funcionando como argumento anti-religioso, como o fato das religiões de hoje serem uma colcha de retalhos de velhas religiões pagãs e mitologias de diversas culturas (o fato de Pi ter abraçado muitas religiões), ou a liberdade que Pi dá ao escritor que contará sua história para fazê-lo do jeito que lhe convir, já que as próprias histórias da Bíblia, Torá, Alcorão etc são escritas por terceiros (ou quartos, quintos, sextos), que, na melhor das hipóteses, estavam presentes aos acontecimentos e os narram de acordo com sua ótica, mas geralmente narram histórias que vinham sendo contadas há diversas gerações.

Ao final do filme fica claro, ainda, que sua aventura não passava de uma alegoria, sendo cada animal a representação de uma pessoa diferente, e o jeito como Pi trata a questão é típico de uma boa história bíblica para boi dormir: se ele era o único presente que poderia passar a história adiante, que diferença faz se ele a conta de um jeito ou de outro? Resta ao interlocutor aceitar e, literalmente, falar amém, já que a lógica é um mero detalhe.

(IMDb)

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Holy Motors

holy-motorsEste foi o primeiro filme que assisti no cinema do CIC desde sua reabertura, então já faz um tempinho, talvez uns seis meses. Desde que vi o filme e até o atual momento me sinto dividido com relação a ele. Saí do cinema confuso, mas lendo sobre ele depois na internet a confusão deu lugar a uma grande admiração. Que infelizmente não foi capaz de me fazer esquecer de uma ponta de insatisfação, que não saberia explicar.

O filme acompanha um dia na vida de Oscar, andando por vários cantos da cidade em uma limosine enquanto se prepara para uma curta encenação, vestindo-se e lendo roteiros entre uma performance e outra. Belas histórias são contadas em diversas dessas encenações, outras já parecem não levar a lugar algum, só tendo me deixado mais confuso. Depois de todas as experiências vividas pelo protagonista ao longo do dia, sua motorista leva a limosine até uma garagem onde várias outras limosines se encontram estacionadas… e elas começam a conversar entre elas, sobre o medo de serem consideradas obsoletas.

É, acho que saquei a origem da minha insatisfação. Foi esse final do filme. Porque todo o resto, apesar de uma ou outra parte mais tediosa, é bom, e é bonito, principalmente o arco envolvendo a Kylie Minogue.

(IMDb)

Cosmópolis

cosmopolisNão seria certo que eu afirmasse ser um grande fã do diretor Cronenberg, já que vi poucos de seus filmes e particularmente consigo lembrar bem apenas de dois dos mais recentes, ambos protagonizados por Viggo Mortensen. Não havia expectativa nenhuma com relação a este novo filme, portanto, além da mera curiosidade pelo trabalho de um diretor que admiro e de um ator buscando se afirmar na profissão com um trabalho que pudesse revelar algo além de um vampiro purpurinado.

Infelizmente, em ambos os casos, a experiência foi decepcionante. O filme não traz nada de inspirador em sua execução, e a interpretação de Robert Pattinson chega a ser irritante. Seu personagem com tendências autodestrutivas beira o “niilismo miguxo” descrito na célebre comunidade do moribundo Orkut, e a inevitável sensação que tive foi a de que, se tivessem optado por um ator mais talentoso, o resultado seria imensamente superior.

Fica a lição para os executivos de Hollywood: em matéria de niilismo, quem nasceu pra Edward Cullen nunca será um Patrick Bateman.

(IMDb)

Tim and Eric’s Billion Dollar Movie

tim-and-ericEsta iniciativa cinematográfica dos comediantes Tim e Eric, criadores da série do Adult Swim “Tim and Eric Awesome Show, Great Job!” tinha tudo pra não ser nada. E atingiu seu objetivo.

Para quem não está familiarizado, a série humorística da dupla se baseia em pequenos sketches com um humor nonsense, apostando em referências dos anos 80 e 90 para fazer piada com a publicidade televisiva, a comunicação empresarial e outras coisas daquela época. Ao assistir os episódios, a sensação de estar vendo algo de 20 anos atrás é genuína, dando até uma pequena saudade dos antigos comerciais zero-onze-catorze-zero-meia.

O problema do filme é justamente este: em prol de desenvolver uma história que dure mais que os poucos minutos dos sketches aos quais estão habituados, os realizadores acabam incluindo uma porção de coisas que não tem a menor graça e desenvolvem a história de forma pedestre (não que eu estivesse esperando alguma profundidade do filme). No fim, temos um filme entediante, sem nenhum grande momento, digno apenas dos mais profundos abismos do esquecimento.

Aliás, um momento do filme eu não conseguirei esquecer tão cedo: a música “Two Horses”, que está impregnada na minha massa encefálica, quase chegando ao ponto de eu desejar um AVC para pôr fim ao sofrimento.

(IMDb)

 

The Walking Dead (2ª temporada – parte 2)

(Meu comentário sobre a primeira parte da segunda temporada pode ser lido AQUI.)

thewalkingdeadTinha terminado de ver a primeira parte da segunda temporada com uma sensação da série ter desandado, mas admito que o episódio final, onde abrem o celeiro e lá encontram diversos walkers (sempre que eu escuto os personagens falando WALKER, meu cérebro completa com TEXAS RANGER) foi marcante e compensou o relativo fracasso dos episódios anteriores.

Ignorando os meses que separaram o lançamento do sétimo e do oitavo episódio, este começa exatamente na cena em que o anterior havia terminado, ajudando a situar novamente o espectador na trama. Com a busca pela menina Sophia (falar “menina Sophia” dá um tom de noticiário pra coisa, tipo “menina Isabella” ou “goleiro Bruno”) encerrada, o grupo fica rachado, tendo perdido o motivo em comum que os unia.

Diversos fatores ao longo dos seis episódios finais dessa temporada dão o tom do que viria a acontecer no final, onde um dos personagens principais morre (spoiler: Shane) e ainda por cima vira um walker (texas ranger) sem ter sido mordido, o que acaba confirmando a teoria do cientista do final da primeira temporada, de que todos estão infectados e, uma vez mortos, ressuscitarão no terceiro dia na forma de errantes.

A invasão de zumbis à fazenda de Hershel os obriga a procurar novo abrigo, alguns outros personagens secundários morrem e, ao final, encontram-se num local seguro para passar a noite, e agora atentem para os spoilers, que é onde Rick, depois de ter matado Shane, assume o controle total do grupo e decreta o fim da demoracia nele.

Não vou ser bundão de exigir atuações shakespearianas em uma série de TV, mas convenhamos: os atores são muito fraquinhos. Alguns olhares trocados ao final da série, que indicavam certo desconforto e até reprovação de alguns personagens por Rick ter matado Shane são fáceis de entender, mas Daryl e T-Dog sabiam do plano de Shane para matar Rick e ainda assim deram o mesmo tipo de olhada desconfiada.

Uma coisa que me chamou a atenção positivamente foram os esforços de Dale para dissuadir seus companheiros da ideia de executar um prisioneiro do bando, preservando o pouco que ainda lhes resta da humanidade que tinham.

Não li a HQ (mas pretendo), porém, segundo relatos, a primeira temporada mudou várias coisas e, depois, tentaram se aproximar dos acontecimentos narrados na obra original. Isso prejudicou alguns personagens, como o menino Carl, que aparentemente é um baita badass na HQ, mas na série, honestamente, não passa de um moleque babaca. O triângulo amoroso Rick-Lori-Shane atinge níveis altíssimos de vergolha alheia ao se aproximar do fim da temporada, e a mudança de personalidade de Rick também soou forçada, pois ele visivelmente não extraiu prazer nenhum do fato de ter matado seu melhor amigo, mas aquilo o transformou em um tirano com algo grau de frieza.

Já comecei a assistir a terceira temporada, que começou muito legal, num estilo meio videogame, de zumbis num ambiente fechado, então espero por melhoras, por mais que, de uma forma geral, tenha gostado bastante dos últimos episódios da segunda temporada.

(IMDb)

A Viagem

a-viagemDesde que fiquei sabendo da existência do projeto dos Irmãos Matrix me interessei muito pelo filme, mesmo não sabendo muito bem do que se tratava, e apesar de óbvia característica que remete ao espiritismo. Alguns meses depois, e com um título que dá vontade de cometer suicídio, finalmente pude assisti-lo.

A Viagem conta seis histórias diferentes, que se passam em momentos distintos na escala de tempo (do século XIX até algum ponto num futuro distante), e de alguma forma vai estabelecendo ligações entre as histórias e seus personagens. Baseada num livro homônimo (homônimo em inglês – Cloud Atlas -, porque espero que não seja chamado também de “A Viagem” quando chegar ao Brasil), a ideia é muito interessante, mas algumas características tornaram o filme mais confuso do que ele deveria ser, como, por exemplo, o fato de os mesmos atores interpretarem personagens diferentes em cada uma das seis histórias.

Bom, não vou negar que é interessante ver um ator interpretar personagens tão diferentes, mas isso tirou o foco do filme e colocou dúvidas em demasia na cabeça de quem procurava entender o que estava vendo na telona: enquanto o filme procura deixar clara a relação entre os personagens que possuem uma marca de nascença no formato de um cometa (no caso, seria esta marca que caracterizaria as reencarnações nos diferentes períodos), a presença dos mesmos atores nas diversas histórias acaba dando a impressão que eles, também, são a reencarnação das pessoas do passado que foram interpretadas por aquele ator. Além de ser uma coincidência ingênua (dúzias de pessoas reencarnariam ao longo dos séculos na mesma região geográfica, simultaneamente, sério?) parte de um princípio tolo que a pessoa manteria suas características físicas ao reencarnar. Não vou entrar no mérito dos dogmas espíritas, mas isso me parece errado.

Minha conclusão, portanto, é que o filme, na verdade, passa uma mensagem totalmente não-religiosa, e muito menos espírita: a perpetuação de uma pessoa nada tinha a ver com as reencarnações dela, e sim com os feitos delas enquanto eram vivas: o primeiro personagem escreveu um diário, que foi lido pelo segundo personagem, que compôs uma sinfonia, que foi ouvida pela terceira personagem, cuja história de vida serviu de inspiração para o quarto personagem, que escreveu o roteiro de um filme que foi visto pela quinta personagem e a inspirou a organizar uma revolução, e tornando-se mártir dessa revolução, acabou virando uma divindade para o sexto personagem.

O flme passeia por diversos gêneros: suspense, comédia, sci-fi, drama… e essa mistura, apesar de servir à trama, acaba por tornar a experiência demasiadamente heterogênea. Dá a impressão de que, ao tentar ser tudo ao mesmo tempo, acaba não conseguindo ser nada.

Gostei muito do filme, mas com algumas ressalvas. Gostaria de ler o livro para entender melhor a ideia original do autor e perceber definitivamente onde os realizadores do filme erraram.

(IMDb)

Django Livre

django-livreFinalmente estreou o tão aguardado “filme de faroeste do Tarantino”, e estive no cinema com a Sarah neste sábado para conferir se a espera valeu a pena. Três anos depois de seu último filme, Bastardos Inglórios, o diretor volta a investir numa ficção histórica, desta vez ambientada na região sul americana, na época da escravidão, e apesar da inevitável sensação de “mais do mesmo” que causa, Django Livre é, sim, um ótimo filme, e funciona como tal independentemente das justas homenagens prestadas por Tarantino.

Assim como em Bastardos Inglórios, este filme começa com Christoph Waltz, um dentista que se revela mais tarde um caçador de recompensas, tagarelando numa tensa negociação que novamente acaba com alguns mortos, tudo para libertar Django, um escravo que poderia ajudá-lo a identificar três criminosos cujas cabeças valem uma boa recompensa. Todo o primeiro ato do filme cobre a ascensão de Django de um escravo com certa rebeldia a um talentoso caçador de recompensas.

Com a amizade que os dois cultivam, surge o plano de resgatar a mulher de Django, Broomhilde, comprada por um excêntrico fazendeiro com mania de requinte interpretado por Leonardo DiCaprio, mas o plano acaba não acontecendo como o esperado.

Django Livre é uma justa homenagem a um gênero que está moribundo desde o início dos anos 70, e funciona muito bem dentro desta proposta, mas não só isso. Ao contrário de A Prova de Morte e até mesmo de Kill Bill, as referências são mais orgânicas, não atrapalhando o andamento do filme, e apesar de ser do feitio de Tarantino fazer referências a filmes dele mesmo, aqui ele se encontra mais contido, resumindo-se a repetir técnicas de filmagem que se tornaram marca registrada do diretor.

Apesar de suas 2h45min de duração, o filme flui muito bem, não abrindo espaço para tédio e bocejos durante a projeção, graças a boa intercalação de cenas cômicas, tensas e momentos de calmaria e do habitual “papo furado” dos personagens.

As atuações dos personagens principais estão ótimas, com Christoph Waltz interpretando de forma muito semelhante ao já clássico Hans Landa (o coronel nazista de Bastardos Inglórios) e Jamie Foxx sendo o típico cawboy protagonista do gênero, de poucas palavras e olhar sério, mas o mais impressionante, na minha opinião, foi DiCaprio como o fazendeiro metido a culto, que faz questão de ser chamado monsieur Candy mesmo sem falar uma palavra em francês. O sempre badass Samuel Leroy Jackson interpreta aqui um escravo puxa-saco de seu senhor, com nada da valentia habitual de seus personagens.

Saí do cinema satisfeito, mas pouco impressionado com o filme. Mas quanto mais paro pra pensar nele, mais tenho vontade de revê-lo.

(IMDb)

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