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Deus da Carnificina

deus-da-carnificinaDirigido por Roman Polanski, este filme baseado numa peça de teatro poderia entrar numa lista de “Filmes que se passam em um único ambiente”, e posso dizer que sou um pouco fascinado por filmes assim. Acho um desafio grande contar uma história com esta característica sem cair no tédio, e Deus da Carnificina se sai bem ao apresentar a história de dois casais cujos filhos se envolveram em uma briga na escola e se reúnem no apartamento de um deles para tentar resolver a situação da melhor forma possível.

Não, a “carnificina” do título não é literal, mas figurativamente já dá a ideia do que os espera: as desavenças são tantas que volta e meia os “times” se reagrupam quando o foco da discussão toma rumos diferentes, ora sendo casal contra casal, ora sendo homens contra mulheres e assim por diante.

O filme se sustenta graças ao inegável talento dos atores, sendo três vencedores e um indicado ao Oscar, mas também a uma filmagem simples e eficiente e, claro, à ótima história.

(IMDb)

God Bless America

god-bless-americaPor recomendação do Bruno Aleixo vimos esta comédia que tem suas semelhanças com Um Dia de Fúria, mas adotando um tom mais satírico e sem se preocupar muito com a verosimilhança da porra toda.

God Bless America narra a vida de Frank, um cara de meia idade emputecido com a futilidade das pessoas ao seu redor, viciadas em programas de TV cada vez mais sensacionalistas e absurdos, que só conversam sobre esses programas, ridicularizam seus semelhantes e coisas do gênero. Após perder o emprego e descobrir estar com um tumor no cérebro, resolve matar uma celebridade teen irritante e se matar em seguida, mas Roxy, uma colegial que compartilha de sua ira, o convence a continuarem com o banho de sangue.

Por mais que funcione bem como crítica à sociedade, o filme é um pouco contraditório ao protestar contra a violência e sensacionalismo (entre outras coisas) com mais violência e sensacionalismo, além de deixar bem claro que não existe consenso entre as pessoas que se identificam com os protagonistas, pois até Frank e Roxy divergem o tempo todo sobre quem deveriam matar em seguida. A menina chega a ser irritante, propondo matar até “pessoas que fazem high-five” e “mulheres adultas que chamam os próprios seios de meninas“. Um filme com a moça atuando sozinha provavelmente seria o maior genocídio já filmado.

Críticas à parte, gostei bastante do filme e me identifiquei, até certo ponto, com a motivação dos personagens. Não acho que a TV seja culpada pela idiotização das massas. Elas só se aproveitam de uma característica da própria raça humana, que sempre viu mais graça em falar da vida dos outros, fofocar, conversar sobre trivialidades e rir de coisas bobas.

(IMDb)

Desconhecido

desconhecidoLiam Neeson, depois de velho, parece querer se firmar como astro de ação, galgando espaços para chegar ao ápice que este segmento pode proporcionar: co-estrelar a nova franquia stalloniana Os Mercenários. Neste Desconhecido, rodado novamente na Europa, a exemplo do sucesso anterior Busca Implacável, Neeson volta a interpretar um homem injustiçado pelo destino, sofrendo um acidente de carro que lhe tira parcialmente a memória ao voltar de taxi ao aeroporto de Berlin, assim que se dá conta de ter esquecido uma maleta. Ao sair de um coma que durou quatro dias, Neeson vai em busca de sua mulher só para perceber que ela, na verdade, está com outro homem, que assume a identidade do protagonista.

O filme aborda esta busca pela verdadeira identidade de Liam Neeson, bem como do homem que lhe roubou a vida, e há, aqui, um quê da trilogia Bourne. Desacreditado pelas autoridades e perseguido por assassinos que ele nem sabe de quem se tratam, o protagonista acaba se envolvendo com a motorista do taxi em que sofreram o acidente e com um ex-agente secreto da Stasi para descobrir o que estava acontecendo.

Chegado o fim do filme, não há nenhuma grande surpresa, apenas um “plot twist” de padrão hollywoodiano, ou seja: algo que ficará marcado na memória por menos tempo que aquele bafo causado pela cebola que você comeu no almoço.

PS: o agente da Stasi é Hitler.

(IMDb)

O Futuro

(Não sei se o título brasileiro é oficialmente este, mas visto que ele só foi lançado na Mostra de SP, e com este título, então é o que adotarei.)

o-futuroFilmes independentes se tornaram um gênero cinematográfico à parte. Os chamados filmes indie normalmente não precisam de outra descrição para situar o espectador acerca de seu gênero, que quase sempre é uma “dramédia”, ou como o IMDb nos ensinou, Drama / Comedy. Existem filmes independentes de outros estilos, como ficções científicas, por exemplo, mas se o filme é taxado de “indie”, se prepare: você vai ver um filme com pessoas estranhas, andamento arrastado, supervalorização de situações corriqueiras e um tom de ingenuidade que chega a níveis ameliepoulânicos.

Apesar do novo gênero ter sido responsável por alguns ótimos filmes na última década, muitos filmes ruins acabam pegando carona no sucesso de seus congêneres, e considero o caso deste O Futuro, que traz um casal sem carisma algum (sendo a mulher, também, a roteirista e diretora do longa) lidando com a expectativa de adotarem um gato que tem poucos meses de vida.

Uma das coisas que mais me irritou no filme foi o esforço que os protagonistas fizeram para salvar um gato já condenado à morte (abandonaram seus empregos e cortaram a internet, pois precisavam se dedicar em tempo integral a ele) para simplesmente ver o dia da adoção chegar sem fazerem nada, chegando ao local dias depois, quando já haviam feito a eutanásia no bichano.

Como dono de gatos, a única coisa que realmente me tocou neste filme foram as partes em que o gato revelava sua esperança de ser adotado por seus novos donos.

Não posso fazer nada além de recomendar que passem longe desse filme caso prezem por sua paz de espírito.

(IMDb)

 

O Abrigo

o-abrigoSem estreia nos cinemas brasileiros (com exceção de festivais), O Abrigo foi aclamado mundialmente, mas pelo jeito não deve ter sido considerado bom o bastante pela Sony do Brasil, que o lançou comercialmente direto para home video. Era um filme que eu aguardava com certa ansiedade para conferir nos cinemas, mas já que esta oportunidade foi usurpada de minha pessoa, usurpo da distribuidora meus pilas, baixando o filme via torrent, só pra variar um pouco.

Trata-se de um ótimo filme que lida com a esquizofrenia, através de seu personagem principal, um pai de família, Curtis (Michael Shannon), disposto a endividar-se e fazer certos sacrifícios pessoais para construir um abrigo subterrâneo para uma catástrofe que ele vem pressentindo.

Deixando claro do início ao fim que suas visões de tempestade são apenas sonhos ou alucinações, o filme desenvolve a loucura de Curtis e sua busca solitária por ajuda médica, sem que sua família e amigos saibam pelo que está passando, apesar de notarem sua abrupta mudança de comportamento. Ao encontrar-se endividado, desempregado e com o casamento por um fio, a sanidade do protagonista é confrontada com os fatos que atestam sua loucura.

O final do filme é interessante, e aqui insiro um grandioso SPOILER ALERT, não venha reclamar depois: numa visão simplista pode-se considerar que Curtis não é louco coisa nenhuma, afinal, ele previu que a tempestade viria, mas se isso for verdade, isso significa que as visões que ele teve com seus amigos e sua própria esposa atacando-o ainda irão se concretizar? E se, por acaso, ele nunca foi àquela praia com a família mas, em sua loucura, está tendo aquela alucinação preso a uma cama numa clínica psiquiátrica para continuar acreditando estar certo? Acho que a cena final, na praia, tem um clima muito onírico para ser real. Por que eles estavam sozinhos naquela praia? Não havia nem mesmo outras casas lá perto.

(FIM DOS SPOILERS)

Enfim, não vejo como uma dessas alternativas pode ser a certa, apenas não acho que exista alternativa errada, como em A Origem.

(IMDb)

Super 8

Não tive muito interesse em assistir Super 8 quando este foi lançado nos cinemas, mas no fim de semana fui dominado pela curiosidade e aluguei o Bluray com o meu irmão, sendo este o primeiro filme que vi em Bluray na vida (o primeiro que vi em DVD foi Rockstar, aquela merda com o Marky Mark Wahlberg).

A proposta de Super 8 é bem óbvia, reeditar o sucesso de produções semelhantes dos anos 80, como ET e Goonies, e a mera presença de Steven Spielberg como produtor deixa isso claro. No que diz respeito ao clima do filme, com as crianças, o mistério e tudo mais, o filme é impecável no que se propõe. O “acidente” de trem foi muito bem feito, os atores mirins fizeram um ótimo trabalho e o clima de mistério era convincente.

O problema estava no tal alien que fugiu do vagão do trem em que estava preso. Achei mal concebido e desinteressante, ineficaz ao tentar apanhar a simpatia do espectador (no final). Outras coisas que eu normalmente veria como defeitos, entendi como uma liberdade artística em prol da homenagem prestada aos filmes de 30 anos atrás, como o vilão estereotipado (Noah Emmerich), diálogos bobos (principalmente entre pais e filhos) e, no topo, a cena em que o delegado da cidade sai “fantasiado” de oficial do exército e automaticamente tem acesso garantido aos locais onde antes era privado de entrar.

Coisas como essas me fizeram lembrar que, afinal, eu estava assistindo um filme “para crianças”, mesmo que as crianças que assistiram aos filmes homenageados por Super 8 tenham, hoje, uns 40 anos.

(IMDb)

Um Método Perigoso

Já estava ciente do clima morno que envolveu esse lançamento há bastante tempo, mas mesmo assim fui ao cinema com a Sarah conferir o novo filme de David Cronenberg, em sua terceira parceria com Viggo Mortensen. Como deve ser de conhecimento geral, o filme narra os primórdios da psicanálise, num momento em que Freud (Mortensen) já possuía resultados bem avançados em suas pesquisas, mas começava a ceder espaço a novos nomes que pudessem dar prosseguimento aos seus estudos, que é onde entra Jung (Michael Fassbender), um jovem médico que começa a aplicar o método de terapia através da conversa com uma paciente russa (Keira Knightley) recentemente internada na instituição em que trabalha.

Até eu, em minha leiguice, fui capaz de identificar vários defeitos no filme, entre os quais a superficialidade de vários diálogos, a obviedade de alguns takes (como quando Freud guarda todas as cartas e um retrato de Jung em uma caixa e fecha-a no momento em que ambos rompem a amizade) e, principalmente a unidimensionalidade de todos os personagens.

Um ponto que me fez perder toda a fé no filme foi o aparecimento de Otto Gross (Vincent Cassel), um psicanalista meio controverso, que é internado pelo pai para ser tratado por Jung. Nos cerca de 10 minutos em que aparece na tela, sua presença serve apenas como um catalisador para os instintos sexuais de Jung para com sua paciente, uma mera voz na consciência que o permite ceder à tentação. Da mesma forma como entrou na projeção, Cassel sai dela, de repente, ao terminar de fornicar com uma mulher no jardim da instituição, agradecer e pular o muro para a liberdade.

Raso como um pires, Um Método Perigoso é um filme que, se nao pode ser considerado um fiasco completo, é algo muito próximo disso.

(IMDb)

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