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We3

Depois de três semanas de atraso na entrega de alguns livros e HQs que comprei na Amazon, finalmente pude ler esta HQ que já gerava grandes expectativas em mim há pelo menos um ano. Comprei uma edição de luxo em capa dura que estava em promoção sem saber que existia uma edição nacional, pela Panini, por menos de 20 reais. Mas minha ignorância me fez bem, pois seria um erro comprar uma versão traduzida de uma obra como esta, que, apesar de poupar nos diálogos, traz algumas questões que impossibilitam uma tradução precisa. Na verdade, qualquer tradução é imprecisa, mas em outros casos as peculiaridades podem ser contornadas com mais facilidade. Aqui, seria necessária uma desfiguração dos termos originais (incluindo o título da HQ). Se a pessoa é relativamente fluente no idioma original da obra, lê-la (ou assisti-la, ouvi-la etc) dessa forma é uma óbvia questão de bom senso.

We3 pode ser, de certa forma, comparado ao primeiro Rambo (First Blood), com características do clássico sessãodatardístico “A Incrível Jornada“. Trata da história de três animais domésticos (um cachorro, um gato e um coelho) aprisionados em um exoesqueleto metálico com poderosas armas, utilizados num experimento militar desenvolvido com a promessa de retirar dos campos de batalha milhares de soldados, salvando, assim, muitas vidas. Mas após uma missão de teste em que um ditador latinoamericano é assassinado, os três são descartados por serem considerados obsoletos, cabendo à cientista Roseanne a tarefa de aplicar a injeção letal nos animais. Em cerca de 8 páginas praticamente sem falas, acompanhamos as câmeras de vigilância do complexo em que se encontram testemunhando a libertação dos animais, a saída da cientista, oposta à chegada de alguns soldados, e a fuga dos três bichos, deixando um rastro de mortes por onde passam, poupando, apenas, a vida de Roseanne. O que se segue é a busca do cachorro por seu antigo lar, tentando persuadir os outros dois a acompanhá-lo.

Inteligente na forma como desenvolve a personalidade dos três personagens principais, We3 ainda dá aos bichos a capacidade de fala, uma fala rudimentar, apenas com poucas palavras básicas, capazes de expressar aquelas personalidades. Bandit, o cão, é fiel e não tem o mesmo ímpeto assassino de Tinker, a gata, que vê em qualquer contato com humanos uma ameaça. Bandit tenta, em certo momento, salvar a vida de um humano em um acidente, só para sabermos, alguns quadros depois, que seu esforço fora em vão. Já Pirate, o coelho, tem a personalidade de… um coelho. E eu sei lá o que isso pode significar, já que ele está claramente inserido na história em um plano inferior ao dos outros dois.

Econômica na quantidade de páginas e no desenvolvimento dos personagens, a HQ deixa esta tarefa quase toda nas mãos do ilustrador, poupando palavras e investindo em quadros super expressivos. É em poucas páginas que descobrimos que Roseanne é uma pessoa extremamente solitária e infeliz, um outro cientista, ao fazer experimentos com ratos, regozija-se ao ordenar, por controle remoto, que um roedor mata o outro, mas o que vemos é apenas um pequeno e contido sorriso, evidenciando uma certa psicopatia. E, de forma genial, dedicando apenas uma página para cada um dos três animais principais, é possível saber muitas coisas sobre eles apenas ao ver os cartazes que foram feitos por seus antigos donos ao darem conta de seu desaparecimento.

Inclusive, na HQ, nunca fica claro se o recrutamento dos três foi uma coincidência por terem achado os três animais perdidos, ou se o desaparecimento deles foi consequência de um “sequestro” visando o experimento ao qual seriam submetidos.

(Amazon)

V de Vingança

Entre o fim de 2005 e o início de 2006, meses antes da adaptação cinematográfica desta obra, li, pela primeira vez, V de Vingança. Uma obra corajosa, anárquica, reflexo do estado inglês autoritário da época de Margaret Tatcher que vigorava na época da publicação.

O texto abaixo tem spoilers, e em seguida faço uma breve comparação com o filme (que gostaria de ver de novo em breve).

A história ocorre em 1997 e 1998, cerca de uma década no futuro, em relação à época em que foi publicada, e começa com a primeira noite da nova vida de prostituta que Evey Hammond se viu obrigada iniciar, dadas as péssimas condições de vida que seu emprego lhe proporciona. Ao oferecer seus serviços a um homem que se revela do Dedo (polícia), Evey se vê ameaçada de morte por ele e seus colegas, até que é salva pelo misterioso V, um homem mascarado, que se comunica predominantemente através de citações e charadas.

O que se segue é a constante demonstração de controle da situação por parte de V, com explosões de prédios e assassinatos de pessoas que, num primeiro momento, não parecem ter nenhuma relação entre si; e o desespero das várias esferas do governo, vendo crescer a ameaça a sua ditadura. A história ainda possui algumas tramas paralelas, como o breve romance vivido por Evey, a disputa pela sucessão do líder e a desgraça vivida pela viúva de uma das vítimas de V.

Do início ao fim, ficamos sabendo muito pouco sobre V. Sabemos apenas que, por algum motivo, ele se enquadrava nas minorias combatidas pelo regime (negros, paquistaneses, homossexuais etc), o que fez com que fosse levado a um campo de concentração. Foi neste lugar que V foi utilizado como cobaia em testes que viriam a formar sua atual personalidade.

A coragem maior da obra reside no fato de sermos levado a simpatizar com um terrorista. Por melhor que seja sua motivação, ele permanece sendo um terrorista do início ao fim. Após cada frase dita por V, cada citação, cada detalhe de seu passado, a simpatia pelo personagem aumenta.

Aliás, como é possível entender ao longo da história, a máscara de V não é um luxo de um homem deformado pelas experiências do qual foi vítima e do incêndio que o libertou, e sim a ferramenta-chave que separa o homem do símbolo que ele representa. Tire de V sua máscara e ele será apenas um homem com belas palavras e atitudes duvidosas; dê a ele o anonimato, e este torna-se uma lenda.

É assim que V prepara o caminho até o final da história, onde diz a Evey “do what thou wilst” (fazei o que quereis), e esta pergunta qual é a sua vontade (“what is your will?”), ao que V aparentemente deixa a pergunta sem resposta e começa, pela primeira vez, a mostrar todos os aposentos da Shadow Gallery a sua aprendiz, no que é um dos pontos-chave da história. O trocadilho com a palavra “will”, que em inglês significa, também, “testamento”, só é entendido quando V morre e Evey se encontra sozinha e sem saber o que fazer.

Desde o início V sabia que não sairia vivo de seu plano de libertação, e cuidou de todos os detalhes para garantir que seria bem representado após sua morte. Ao dar a Evey seu “batismo” na chuva (em oposição ao seu próprio batismo, que foi com fogo), V criou uma réplica de sua personalidade ao impôr a ela experiências semelhantes às que ele mesmo havia sido vítima. Ao deixar pistas de que era prisioneiro do campo de concentração em Larkhill, V ainda deu a oportunidade de seus inimigos se submeterem à mesma experiência, o que acabou sendo feito por Finch, ao ingerir certa quantidade de LSD nas ruínas de Larkhill. Isto fez com que ele pudesse “entrar” na cabeça de V e antecipar alguns de seus atos.

Ao final, com quase todos os “vilões” mortos, Evey encarna definitivamente a persona de V, com a missão de manter viva, eterna e sem rosto a anarquia pregada durante toda a história, anarquia em seu conceito puro, “sem governo”, e não em sua distorção “sem ordem”.

Com a diferença de poucos meses entre ter lido a HQ e ter visto o filme, algumas coisas estavam um pouco confusas na minha memória. Algumas coisas que estavam na HQ eu achava que eram exclusividade do filme e vice-versa, mas agora creio que a diferença entre as obras esteja mais clara.

Em primeiro lugar, é curioso que, normalmente, adaptações cinematográficas de obras literárias apresentem dificuldades de orçamento pela dificuldade de criar cenários e situações com a riqueza de detalhes que algumas páginas de papel fazem com mais sucesso e sem gastar nenhum centavo. O filme V de Vingança é uma superprodução de Hollywood, com muito dinheiro e pessoas poderosas envolvidas. Já a graphic novel não possui 10% da mania de grandeza do filme, mesmo dispondo da liberdade que sua mídia proporciona para a fantasia.

Cenas de luta, explosões, tecnologia, tudo isso aparece de forma exagerada no filme. Pudera: produzido pelos irmãos Matrix, não dava pra esperar nada que não fosse a usual megalomania.

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