O Poderoso Chefão III

poderoso-chefao-3Chegamos ao terceiro e último filme dos Corleone, lançado 16 anos depois de seu antecessor e com diversas importantes mudanças em seus personagens. Assim como nos dois filmes anteriores, este começa com uma grande festa, desta vez em honra à comenda recebida por Michael Corleone das mãos do Papa, em uma jogada que já daria o tom do filme, de forte relação com a alta cúpula do Vaticano. Neste filme, Michael conseguiu, finalmente, legitimar os negócios da família, mas a origem suja de sua fortuna e seus fantasmas do passado continuam a atormentá-lo.

Já divorciado de Kay, Michael busca a todo tempo a reconciliação, sem sucesso, e ainda vê sua ex-esposa tomar partido ao lado de seu filho quando este resolve dizer ao pai que não pretende dar prosseguimento aos seus negócios, mas ao invés disso, tornar-se um cantor de ópera. Sob protestos de Michael, Anthony recebe a bênção do pai para perseguir este futuro.

Esta é a deixa para o que talvez seja a grande mudança neste filme em relação aos anteriores: se no primeiro filme a figura feminina é quase decorativa, ganhando ares contestadores com Kay à medida que chega ao fim, e no segundo filme vemos algum livre arbítrio apenas nesta última personagem, em O Poderoso Chefão: Parte III Connie praticamente assume o papel de “A Poderosa Chefona” ao chamar para si certas responsabilidades, como apresentar Vincent a Michael, dar a ordem para que Vincent matasse Joey Saza e dar uma caixa com canolis envenenados ao seu padrinho, Don Altobello (o “Feio”, dos Três Homens em Conflito, que neste filme é Alto e Bello – piada da Sarah, reclamações podem ser enviadas à ouvidoria).

Nenhuma dessas intervenções, no entanto, é tão importante quanto o que ela diz a um enfraquecido Michael que acabara de se confessar: “às vezes eu penso no pobre Fredo, afogado. Foi a vontade de Deus. Foi um acidente horrível, mas acabou”. Naquele momento Michael era o fraco, dependente, e Connie, conhecedora da verdade, tratou de trazer Michael de volta à dura realidade. Aquele era um assunto a ser esquecido, e Michael precisou da ajuda de sua irmã caçula, a quem protegera a vida inteira, para conseguir fazê-lo.

Outra característica da presença feminina no filme é a importância dada a Mary, filha de Michael e Kay, que assume o papel de porta-voz da Fundação Vito Corleone. Por mais que caibam críticas ao nepotismo artístico de Francis Ford Coppola (sério, pesquisem a quantidade de parentes que ele empregou ao longo da trilogia, culminando com a escalação da insossa Sofia Coppola), o uso de sua própria filha como uma das protagonistas do filme foi algo que aprendi a digerir com o tempo. Se eu encarava a atuação precária da moça com revolta há alguns anos, hoje tento imaginar que a falta de talento da intérprete de Mary Corleone ajuda a compor a personagem, afinal, ela é uma garota ingênua e jovem, e assim como Sofia é despreparada para assumir um papel de destaque em uma das obras cinematográficas mais influentes da história, Mary é despreparada para encabeçar a organização chefiada anteriormente por seu avô e seu pai.

Sobre pequenos defeitos no filme (e não gosto muito de pensar a respeito para não deteriorar sua imagem na minha memória) posso citar a excessiva tentativa de criar rimas com o primeiro filme (a principal delas, bem lembrada pelo amigo Bruno, sendo o momento em que Michael diz a Vincent para nunca deixar que alguém de fora da família saiba o que ele está pensando. Tudo bem, é uma lição valiosa, mas ninguém de fora da família ouviu nada para que Vincent merecesse levar um puxão de orelha igual ao que seu pai recebera décadas antes). Outra coisa que me perturba um pouco: Michael escapa vivo de um massacre, um evento que provavelmente foi amplamente noticiado e investigado. Acho pouco provável que sua presença no evento permaneceria desconhecida ou, pior, que não fosse apontado como suspeito.

O final do filme não fica atrás dos seus antecessores, simbolizando o fracasso total de Michael como protetor da família e, também, como homem de negócios, já que sua empreitada pela aquisição da Immobiliare não deu certo e até mesmo a legalização dos negócios da família se mostrou passageira. A morte de Mary sem dúvida está entre as cenas mais tristes que já vi num filme. Apesar da personagem ser fraca, naquele momento fica claro tudo o que ela simbolizava para os que estavam ao seu redor: era a única pessoa por quem valia a pena lutar para fazer a coisa certa, a única que não havia sido corrompida de nenhuma maneira. Sua morte representou uma volta à estaca zero. Michael morre sozinho, anos mais tarde, e seu cadáver caído no chão é contemplado apenas por um cachorro. Até nisso Michael foi pior que seu pai, que morreu num momento alegre, enquanto brincava com o neto.

O futuro da família sob comando de Vincent nunca é mencionado.

(IMDb)

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