O Poderoso Chefão II

poderoso-chefao-2Lançado dois anos depois do primeiro filme, O Poderoso Chefão: Parte II, traz logo de cara uma grande mudança em relação ao seu antecessor: Tom Hagen perdeu 70% do cabelo em tempo recorde. Brincadeiras à parte, já em sua abertura acompanhamos um acontecimento na infância de Vito Corleone, que foi o fim trágico de sua família e sua chegada à América. Apesar de eu ter dito no post anterior que os três filmes começam com alguma festa com motivo religioso, aqui cabe uma exceção, já que a festa acontece logo após estes primeiros minutos de projeção, num salto de cerca de 60 anos para o futuro, onde o filho de Michael, Anthony (interpretado pelo mesmo ator que faz Vito criança), está recebendo a primeira comunhão.

Volta a questão que mencionei anteriormente, sobre a deterioração da família siciliana tradicional: agora residentes no estado de Nevada, sem uma comunidade italiana forte como a de NY, até a festa é totalmente descaracterizada, sendo a banda incapaz de tocar uma breve tarantela e os aperitivos resumindo-se a canapés, que recebem um desdenhoso tratamento de Frankie Pentangeli. A pessoa que Michael recebe em sua sala é um senador que não hesita em afirmar que odeia os ítalo-descendentes, e o parceiro de negócios mais próximo dos Corleone é um judeu aparentemente pouco confiável (como Pentangeli diz: “seu pai fazia negócios com Hyman Roth, seu pai respeitava Hyman Roth, mas seu pai nunca confiou em Hyman Roth”).

Aliás, a deterioração não se resume aos velhos hábitos e abandono da cultura siciliana, mas acontece dentro do núcleo familiar dos protagonistas, com irmão armando contra irmão (e sendo morto por este), esposa armando contra o marido (no aborto feito por Kay) e filhos se colocando contra os pais (Anthony, enquanto criança, recusando-se a beijar a mãe, bem como no terceiro filme, onde recusa-se a seguir os passos do pai).

Isto acaba ficando mais evidente a cada vez que voltamos no tempo e acompanhamos o desenvolvimento de Vito: Michael falha em proteger sua família, enquanto Vito só sofre a primeira tentativa de homicídio apenas quando seus filhos já são adultos. Enquanto Michael tem em Kay uma inquisidora, pronta para julgá-lo por seus malfeitos e puni-lo da forma que lhe é possível, Vito tem em sua esposa uma parceira e, acima de tudo, uma cúmplice silenciosa.

O carisma de Vito, que sempre fora amado e respeitado, é tanto, que até seu traidor (Tessio) tem a decência de aguardar sua morte para fazer parte da conspiração contra a família do qual é um dos caporegimes. Michael, por outro lado, é temido e odiado, e por diversas vezes se vê em meio a tentativas de assassinato empreendidas por aliados seus (em sua casa, em Nevada e ao fugir de Cuba).

Falando em Cuba, o trecho do filme em que Michael e Fredo estão naquele país é uma obra de arte à parte. Se no primeiro filme o assassinato de Apollonia é o grande catalisador da mudança de personalidade de Mike, neste segundo filme, o momento em que ele se dá conta que o traidor é seu próprio irmão é o acontecimento determinante para a construção do personagem dali em diante. Depois desta descoberta, Michael atinge um grau de frieza com os membros de sua família que culmina em seu total abandono no fim do filme. Capaz de acertar um tapa em Kay num momento de fúria, algumas cenas depois fecha a porta na cara da ex-esposa quando esta aguarda por um beijo de despedida do filho.

Chegado o fim do filme, o esperado banho de sangue vem bem menos sangrento que no filme anterior, com Frankie cometendo suicídio em sua cela, Hyman Roth assassinado ao desembarcar no aeroporto e Fredo assassinado no lago. E então vemos uma cena do dia em que Michael se alista na Marinha para combater na II Guerra Mundial. Naquela ocasião, o único que lhe deu apoio foi Fredo, o irmão cuja morte acabara de ordenar. E logo se viu sozinho à mesa, como viria a ser sua vida a partir daquele momento.

Durante algum tempo eu tive uma preferência sutil por este filme, ao invés do primeiro. Agora que paro para pensar novamente no assunto, minha preferência é pelo filme de 1972. Uma escolha difícil, e certamente não definitiva.

(IMDb)

Anúncios

Marcado:, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: