Dredd

Meses depois da última atualização, retorno para falar deste que foi o filme que vi mais recentemente no cinema, a segunda adaptação da HQ para as telonas, Dredd. Não aguardava o filme com expectativa nenhuma até a semana de seu lançamento, pois nem mesmo lembrava do personagem e acompanhei muito pouco as notícias sobre seu lançamento, mas chegado o dia da estreia, opiniões no Twitter eram, em média, a de que se tratava de um filme “surpreendentemente bom”. Foi o bastante para que eu passasse do total ceticismo com relação à qualidade do filme para a mais cega esperança.

Dredd se passa numa cidade futurística encravada no meio de um deserto radioativo onde ou você vive nas ruínas da civilização antiga, ou nas megaconstruções da civilização atual, e a lei é aplicada pelos juízes, que na verdade são policiais com poderes de julgar e aplicar a pena, numa lapada só. É mais ou menos o que acontece em São Paulo e em tantas outras cidades, com a diferença que no filme eles têm autorização pra isso.

É aí que reside minha primeira frustração. Fui assistir o filme achando que haveria alguma crítica a esta forma de aplicar a lei, mas o que vemos é a glorificação dos métodos de um personagem de índole questionável. Tratado como anti-herói em algumas referências que pesquei na internet, Dredd tem uma diferença abissal com outros personagens considerados anti-heróis: enquanto Wolverine, Han Solo, Deadpool, Rorschach etc são filhos da puta assumidos que eventualmente praticam boas ações, Dredd é um sujeito que se acha infalível, e sua forma de fazer justiça é absolutamente condenável na não-ficção.

Tomemos como exemplo a abertura do filme, onde o protagonista aborda criminosos em uma van por algum crime do tipo “direção ofensiva”. Digamos que realmente fosse um crime digno da atenção de Dredd naquele momento (já que, no final, é revelado que os juízes dão conta de atender apenas 8% das ocorrências em Mega City One – provavelmente tinha alguma coisa mais séria acontecendo em algum lugar ali perto). A perseguição do juíz aos infratores passou a ser a causa de um dos crimes subsequentes (o atropelamento de um pedestre) e o outro crime ocorrido, que era o consumo de drogas no interior do veículo, não justifica a ação de Dredd. O saldo ao final da ação foi de alguns drogados mortos, bem como um inocente. Se o juiz não estivesse ali, uma pessoa não teria morrido injustamente.

É onde entra Anderson, uma recruta com poderes psíquicos, capaz de ler a mente das pessoas, que em alguns pontos age como bússola moral da película, mostrando ao espectador que um juiz pode (e deve) pelo menos, hesitar antes de aplicar uma pena capital. Ela acompanha Dredd para este avaliá-la já que, por muito pouco, esta não passou na avaliação para se tornar juiza, e seus poderes são considerados de grande utilidade.

Excluindo o debate moral, Dredd é um filme correto, e o 3D realmente funciona no clima claustrofóbico a partir do segundo ato, contribuindo para o entendimento da arquitetura do ambiente. A violência explícita, turbinada pelas cenas em câmera lenta, que nos permitia acompalhar uma bala atravessando lentamente a bochecha de um criminoso, rasgando aos poucos a fina camada de pele e trazendo consigo um jorro de sangue, foi o ponto alto no que diz respeito à estética do filme. É difícil surpreender o espectador com violência nos dias de hoje, pois já vimos de tudo, mas aqueles tiros e o sangue jorrando em 3D foi bonito de ver.

Ao final do filme, o que permanece, entretanto, é a decepção pela glorificação de um estado policial que não tem como dar certo. A tentativa de humanizar Dredd fazendo-o aceitar Anderson na corporação mesmo com esta tendo cometido deslizes que a reprovariam sumariamente são em vão. Se pelo menos pudéssemos ver o rosto sob a máscara, já seria um passo adiante, mas ainda assim, insuficiente para um personagem que chega a dizer que “eu sou a lei”.

(IMDb)

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