A Privataria Tucana

Durante as eleições de 2010, blogueiros de esquerda (alguns deles listados nos links no final desta página) anunciavam que o jornalista Amaury Ribeiro Jr. tinha material contra o eterno candidato José Serra, e que um livro com este material seria lançado, mas não durante a campanha, para não haver suspeita de “encomenda” feita pelo comitê de campanha petista.

Pouco mais de um ano após o fim das eleições, com o Nosferatu Serra exorcizado da política nacional, ninguém mais esperava um dia ler o tal “livro do Amaury”, como era conhecido no meio, até que o anúncio de sua publicação veio como uma grata surpresa: no dia 09 de dezembro de 2011, a publicação do livro foi noticiada, em primeira mão, no site da revista Carta Capital, e no mesmo dia comprei meu exemplar pela internet, que recebi na semana seguinte.

O livro é realmente uma bomba. Com tudo perfeitamente documentado, negar o óbvio tornou-se tarefa difícil, como há muito tempo a mídia amiga do PSDB em São Paulo não via. O caminho escolhido foi ignorar a existência do livro, acreditando que, assim, sem anunciá-lo, suas vendas estacionariam e o assunto seria esquecido.

O que os donos dos principais conglomerados de comunicação do Brasil não esperavam é que o livro fosse vender suas 15 mil cópias no primeiro fim de semana, mais 20 mil durante a semana seguinte, e seguiria aumentando suas vendas até hoje: 120 mil cópias já foram distribuídas às livrarias do país. Nas primeiras semanas, o golpe da mídia ficou claro: ao omitir o livro das listas de mais vendidos, ficou evidente a intenção de escondê-lo, e já naquela semana, os tradicionais colunistas de Veja, O Globo, Estadão e Folha partiram para a nova tática: se não podiam mais ignorar a existência do “livro do Amaury”, então passariam a desmoralizá-lo.

A tática mostrou-se pouco eficiente, e o que se sucedeu foi vergonhoso: sem ter noticiado nenhuma vez o lançamento do livro, os jornais e revistas passaram a publicar a defesa dos acusados! Víamos nas páginas dos jornalões José Serra perdendo a linha e dizendo que o livro era um “lixo, lixo, lixo” (pelo menos não falou que era “trololó petista”, como tantas vezes durante as eleições), sem que esses jornais tivessem sequer falado do conteúdo do mesmo. Outro fato interessante: uma das personagens principais do livro, a filha do tucano, Verônica Serra, soltou uma nota à imprensa que recebeu imediatamente toda a atenção dos mesmos veículos que omitiram o livro durante tanto tempo. E o pior: na nota, ela mentia descaradamente.

Contextualizado o momento histórico, falemos do livro. Ele gira em torno de cinco personagens principais, além de alguns coadjuvantes: José Serra, Verônica Serra (filha de Serra), Gregório Marin Preciado (marido da prima de Serra), Ricardo Sérgio de Oliveira (caixa de campanha de Serra e FHC em diversas eleições) e Alexandre Bourgeois (genro de Serra).

A Privataria Tucana conta com detalhes como funcionava o esquema de lavagem de dinheiro oriundo das propinas das privatizações, além de dar detalhes sobre os esquemas de favorecimento na venda das estatais. Disseca as relações institucionais entre as empresas dos envolvidos com suas equivalentes em paraísos fiscais, revela como um empresário falido (Preciado) conseguiu mais de uma vez o perdão de sua dívida milionária com o BB na época em que o presidente era Ricardo Sérgio, além de diversas outras falcatruas.

Ao final do livro, o autor ainda dá detalhes sobre o período eleitoral de 2010, sobre como foi levado ao olho do furacão por causa das informações que possuía, e como o PT de São Paulo quase conseguiu sabotar a candidatura de Dilma, mesmo com a evidente facilidade de obter a vitória no pleito.

Durante a leitura, a sensação é de raiva. Raiva por ter sido representado durante oito anos por uma turma que anunciava a modernidade ao Brasil com as privatizações, mas que pensava apenas nas formas de lucrar com isso. Por ter perdido, talvez para sempre, estatais que foram sucateadas propositalmente, como a Vale, bancos e empresas de energia elétrica, só para justificar uma venda a preço de banana. Por ter vendido quase todo o sistema de telefonia para empresas estrangeiras, de forma desordenada, que resultou no péssimo serviço prestado nos dias de hoje. Pelo BNDES ter financiado a compra de todas essas estatais com juros baixíssimos, subsidiados pelo governo.

Hoje sabemos o que poderia ter sido feito na maioria dos casos: a Petrobrás já estava passando pelo processo de sucateamento há anos, e era inevitável que logo seria colocada à venda. Hoje é uma das maiores empresas do ramo no mundo, com tecnologia de ponta, gerando empregos no Brasil direta e indiretamente. Imaginem se o mesmo tivesse sido feito com a Vale? E as empresas de energia elétrica, que após sua venda nunca viram nenhum investimento privado em infra-estrutura?

O que foi praticado nos anos 1990 foi um assalto ao patrimônio público, que torço para que possa ser revertido, de alguma forma. O estado mínimo, que muitos defendem, é uma ilusão, e a crise que se iniciou em 2008 provou isso: o mercado pediu socorro aos governos dos países para não entrar em colapso. Precisa de prova maior que essa?

Com o fim do recesso no congresso, em fevereiro, aguardamos pelo início das atividades da CPI da Privataria.

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2 pensamentos sobre “A Privataria Tucana

  1. Cesar 17/01/2012 às 11:15 Reply

    Estimulado pela leitura do teu belo texto, deixo meu registro para, em primeiro lugar, parabenizá-lo por ele e segundo lugar, manifestar minha alegria de não seres tucano, embora nunca tivesse interferido na tua educação política.

    • Eric R 17/01/2012 às 11:45 Reply

      hahaha não interferiu nem na política e nem na futebolística, mas nessa última tu teve menos sorte, né 😀

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